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A logística dos combustíveis tem pressa

Existe consenso de que o parque de refino no Brasil será insuficiente para atender a demanda futura projetada para os próximos 10 anos. Os problemas decorrentes desse déficit operacional estão hoje sendo ironicamente atenuados devido à recessão que o país está atravessando. As refinarias vêm operando com 75% da carga e os 25% restantes devem absorver algum aumento da demanda no curto prazo. No entanto, a importação de diesel e gasolina tenderá a aumentar no curto prazo se a economia der sinais de um crescimento mais vigoroso do que o que vem sendo projetado. Paradoxalmente a produção de petróleo no país vem crescendo de forma constante, sobretudo nas áreas do pré-sal.

Evidentemente que a decisão de importação prende -se não apenas às questões operacionais, mas também à avaliação econômica de oportunidades pontuais de oferta de derivados no mercado internacional. Entretanto o desejável é que a decisão de importação seja uma opção de caráter gerencial, e não algo imperativo devido à deficiências operacionais.

Fig. 1 – Importação anual – Diesel e Gasolina (Fonte: ANP – Elaboração Leggio)
Fig. 2 – Importação mensal – Diesel e Gasolina (Fonte: ANP – Elaboração Leggio)
Fig. 3 – Demanda e Oferta – Diesel A (Fonte: ANP – Elaboração Leggio)
Fig. 4 – Demanda e Oferta – Gasolina A (Fonte: ANP – Elaboração Leggio)
Fig. 5 – Projeção de Demanda e Oferta – Diesel A (Fonte: Leggio)
Fig. 6 – Projeção de Demanda e Oferta – Gasolina A (Fonte: Leggio)

Considerando as implicações logísticas no longo prazo, muito provavelmente chegaremos à conclusão da necessidade da construção de pelo menos uma nova refinaria, cuja localização deverá ser definida levando-se sempre em conta a origem do suprimento do óleo cru, a localização dos mercados consumidores, bem como a infraestrutura de transportes existentes para a movimentação dos produtos refinados.

Com a firme intenção dos integrantes do governo recentemente eleito de privatizar as refinarias da Petrobras, pode-se ter aí uma janela para que investidores privados passem a estudar o assunto como uma oportunidade de participar do mercado nacional. A expectativa é que, com a entrada de atores privados no refino, o tempo necessário para a solução seja abreviado. Entretanto, independentemente da atividade vir a ser privatizada ou não, a deficiência operacional de longo prazo do refino precisará ser equacionada pois se o país, como torcemos todos, voltar a crescer, os problemas se agravarão rapidamente e poderão, eventualmente, colocar  em risco o abastecimento do país, com consequências altamente indesejáveis.

No que tange ao etanol, um dos setores que mais sofreu com a política irresponsável dos últimos governos, a retomada continua lenta. Entretanto começa a existir razoável entusiasmo no setor produtivo em função do Programa RENOVABIO definido pelo MME, o qual está focado em estimular o aumento da demanda por biocombustíveis, com base na necessidade de cumprimento dos compromissos assumidos pelo Governo Federal na COP 21.

Os Cenários de demanda e logística para os próximos anos, analisados conjuntamente, indicam a necessidade da introdução de 20 à 25 novas usinas no país, visando responder à necessidade futura tanto de etanol hidratado como anidro.

O consumo atual está na ordem 27 MMm³.

Em um cenário conservador a demanda chegaria à 38 MMm³ em 2030 , o que representa um aumento de 18%. Já em cenário moderado, a demanda chegaria à 45 MMm³ (crescimento de 31%). No caso de um cenário agressivo, a demanda poderia chegar à 50 MMm³ ( crescimento de 46%).

Fig 7 – Projeções de Demanda para Etanol (Fonte: EPE)

É importante registrar que a trágica política de congelamento de preços dos derivados de petróleo, adotada durante o governo intervencionista de Dilma Roussef, não apenas quase destroçou as finanças da Petrobras (corrupção à parte) mas deixou também “de joelhos” o setor alcooleiro. Usinas foram à falência, outras encerraram as atividades, milhares de empregos foram eliminados e, como consequência, passamos de exportadores a importadores também de álcool.

O agronegócio, a despeito dos desmandos governamentais dos últimos anos, vem crescendo fortemente ano após ano. As projeções indicam, conservadoramente, um aumento de 30% na produção de grãos para os próximos 10 anos, passando das atuais 232 milhões de toneladas/ano para 300 milhões de toneladas/ano. A atual produção anual já é suficiente para alimentar cerca de 1 bilhão de pessoas por ano.  Não fica difícil entender o interesse de países como a China no setor agrícola do Brasil.

A ocupação de terras para agricultura vem se movimentando do centro-oeste para o norte e regiões como o norte de Tocantins, sul do Maranhão e do Pará já entraram na rota da ocupação agrícola. Em poucos anos a demanda por combustíveis, sobretudo óleo diesel, será expressiva na área. Muito provavelmente fará mais sentido, sob o ponto de vista logístico, que o suprimento de combustíveis que hoje já ocorre por cabotagem, a partir do norte do país, tenha que ser intensificado para suprir as novas áreas de ocupação agrícola, e também atingindo áreas que hoje são supridas pela Refinaria de Paulinia-SP.

Uma nova Refinaria na região norte começa a fazer sentido.

Em discussão com a Consultoria Leggio, especializada em logística para o mercado de Petróleo & Gás, conclui-se que o estado do Maranhão poderia ser o mais indicado para receber uma nova refinaria. O Porto de Itaqui, com seus 19 metros de calado, comporta facilmente a operação de navios de grande porte, de até 300 mil toneladas, para o recebimento do petróleo vindo das Bacias de Campos e Santos, e expedição de derivados. Algum investidor privado, produtor de petróleo ou não, que viesse a construir uma nova refinaria na área, teria toda a infraestrutura portuária para operar também com petróleo importado.

As distribuidoras teriam algumas facilidades logísticas para interiorizar os combustíveis, utilizando a Ferrovia Norte-Sul , que já opera parcialmente, hidrovias existentes e ainda outras opções no futuro como a Ferrogrão, ainda em fase de projeto.

Num ambiente otimista de crescimento da economia, talvez os estudos para uma segunda refinaria devam ser iniciados. É um novo momento, e é imperativo que os problemas sejam analisados e discutidos com a devida antecedência.

Sem querer discutir com maior profundidade a deficiência da infraestrutura logística do país, a ampliação do parque de refino per se não resolverá o problema da eficiência do suprimento de derivados. Temos poucas ferrovias, sendo que a maioria em mau estado de conservação, pouquíssimos pipelines e rodovias precárias e que, em sua maioria, dispensam maiores comentários.

O novo governo com sua proposta liberal, dando segurança jurídica às privatizações, não deverá ter grande dificuldade para atrair investidores privados que possam ajudar a solucionar os problemas decorrentes dos gargalos logísticos, os quais prejudicam não somente o suprimento de combustíveis, mas também encarecem e sufocam o desenvolvimento do país como um todo.

Que o novo governo, com sua agenda liberalizante, entenda claramente o problema e acelere na solução. O que se espera do novo governo é o estabelecimento de políticas públicas claras que sejam atraentes para investidores privados. Existe capital e investidores no mundo que buscam avidamente oportunidades em países que tenham bons projetos e ofereçam segurança jurídica, fundamental, sobretudo, para investimentos em infraestrutura.  Esse é o caminho mais rápido, mais eficiente e com riscos de corrupção muitíssimo minimizados.

Chega de protelações. O país tem pressa e já perdemos muito tempo.

Como disse  Winston Churchill, criticando o imobilismo inglês, quando em 1939 a Alemanha invadiu a Polônia, “O tempo das procrastinações acabou. Chegamos ao tempo das consequências”

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