Uma publicação da Editora Brasil Energia

Cenário Energético Internacional: Implicações para o Brasil

Os cenários atuais para a evolução do mercado energético nas próximas décadas sugerem que o consumo de combustíveis fósseis seguirá crescendo

Os cenários atuais para a evolução do mercado energético nas próximas décadas sugerem que o consumo de combustíveis fósseis seguirá crescendo, mesmo que os compromissos assumidos pela comunidade internacional no acordo de Paris sejam cumpridos. O incremento do consumo será pouco significativo nos países da OCDE, onde as políticas que buscam aumentar a eficiência energética permitirão reduzir a intensidade energética nas atividades socioeconômicas. Praticamente todo o incremento do consumo global ocorrerá nos países em desenvolvimento (PVD), especialmente nos asiáticos, que devem responder por 2/3 desse incremento.

O incremento no consumo de energia nos PVD ocorrerá por duas razões centrais: (i) o crescimento continuado de sua população (mais 1,7 bilhões de pessoas em 2040) e (ii) a intensificação do uso de energia com o objetivo de aumentar a produtividade do trabalho. Esse incremento permitirá reduzir a fissura socioeconômica existente entre os países da OCDE e os PVD, porém parcela significativa da população dos PVD permanecerá sem condições econômicas para obter acesso ao suprimento de fontes modernas de energia.

O último Energy Progress Report do Banco Mundial informa que três (3) bilhões de pessoas permanecem atualmente sem acesso a fontes de cocção ambientalmente adequadas e um (1) bilhão de pessoas não tem acesso a suprimento elétrico.

Estudo da BP procurou identificar possíveis trajetórias para o consumo de combustíveis e as respectivas emissões de CO2 no horizonte 2040 (ver figura). O estudo indica que a ampliação do consumo de energia assentada nos combustíveis fósseis (more energy) incrementará a volatilidade do preço do petróleo e acelerará as emissões de CO2. A volatilidade do preço da energia reduzirá o ritmo do crescimento econômico, e as emissões de CO2 terão efeitos desastrosos para o meio ambiente já identificados pela comunidade científica. Esse cenário indica que a transição energética para as fontes renováveis de energia é absolutamente necessária para a sustentabilidade do crescimento econômico e a preservação da vida no planeta.

A transição energética poderá ocorrer de forma radical (rapid transition), situação em que a redução da parcela do carvão e do petróleo se fará concomitantemente com acelerada ampliação da parcela das fontes renováveis de energia na matriz energética global. Nesse cenário, o consumo de combustíveis fósseis, especialmente o consumo de petróleo diminuiria substancialmente, reduzindo drasticamente a dependência da economia global da oferta de petróleo do Oriente Médio.

FIGURA

Fonte: BP 2019 Energy Outlook

 

Nesse cenário, o problema da volatilidade do preço da energia seria sensivelmente mitigado. As fontes renováveis atenderiam 29% da matriz energética global, permitindo reduzir as emissões de CO2 em 2040 para patamar similar ao vigente na década de 1970. O risco de mudanças climáticas neste século seria eliminado. Contudo, os efeitos econômicos e geopolíticos desse cenário seriam muito agudos e difíceis para a comunidade internacional administrar cooperativamente.

O estudo da BP analisa cenários mais moderados para a transição energética (evolving transition ou less globalisation). Nesses cenários, os combustíveis fósseis continuariam a responder por pelo menos três quartos (¾) do suprimento energético global em 2040. Porém o consumo de petróleo permaneceria praticamente estancado no patamar atual. Haveria pequena redução no uso de carvão mineral na geração de eletricidade, especialmente nos países asiáticos.

Apesar de aumentar o consumo global de fontes renováveis, a parcela dessas fontes na matriz energética global representaria apenas 15% em 2040. É importante destacar que, tanto nos cenários de transição moderada quanto no de transição agressiva, a expansão do consumo de gás natural, especialmente na geração de eletricidade, teria que ser fortemente intensificada.

Os cenários moderados sugerem que a transição energética será fundamentalmente assentada em inovações que promovam eficiência energética, a difusão das fontes renováveis de energia e o consumo de gás natural. Porém é importante notar que as emissões de CO2 ficarão estagnadas no patamar atual, nível incompatível com os compromissos assumidos em Paris para evitar os riscos das mudanças climáticas. Essa perspectiva indica que será crescente a pressão social para a adoção de políticas mais agressivas visando conter as emissões globais de CO2.

Os países da OCDE apostam em inovações no sistema de transporte e na intensificação do uso da eletricidade nas mais diversas atividades econômicas como vetores determinantes para sua transição energética. Já os países asiáticos, principais responsáveis pelo aumento no consumo global de energia nas próximas décadas, apostam na substituição do carvão por renováveis e gás natural na geração de eletricidade como política central de sua redução nas emissões de CO2.

Essas políticas buscam reduzir a dependência da oferta de petróleo do Oriente Médio para viabilizar a continuidade do crescimento econômico, ainda que em ritmo menos intenso que no passado.

Nesses cenários, os PVD enfrentarão forte concorrência dos países da OCDE para obter acesso ao suprimento de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) durante a transição energética. E a disputa geopolítica pelo suprimento de hidrocarbonetos aumentará significativamente a volatilidade do preço do petróleo. O Brasil encontra-se em posição favorável para desempenhar papel relevante nas negociações internacionais vinculadas à transição energética global.

O acesso a fontes modernas de energia (GLP e eletricidade) está praticamente universalizado no país. Nossa matriz energética está assentada em fontes renováveis de energia (hidreletricidade e crescentemente etanol, eólica, solar). O incremento programado da produção doméstica de hidrocarbonetos, boa parte dela proveniente dos contratos de partilha, cria condições favoráveis para que o país adote política de preços que minimize os efeitos deletérios da volatilidade do preço do petróleo no mercado internacional.  Além disso, o país será ofertante de volume crescente de petróleo para o mercado energético global, trunfo relevante nas suas negociações com parceiros comerciais europeus e asiáticos.

Conter a recente expansão descontrolada do desmatamento, especialmente na região amazônica, é o principal desafio ambiental enfrentado pelo Brasil. Porém os dados de desmatamento disponíveis até meados da presente década mostram que os compromissos brasileiros com o desmatamento assumidos em Paris podem ser cumpridos sem dificuldades.

No plano estritamente energético, o maior desafio reside na organização do mercado do gás natural, ainda incipiente. O desenvolvimento do mercado do GN envolve múltiplas dimensões (regulação, logística, financiamento, concorrência com o petróleo e com as fontes renováveis) que exigem um enfoque multidisciplinar para que alcance sucesso.

No ambiente econômico, é fundamental formular estratégias para a mitigação da volatilidade do preço do petróleo no mercado global e, sobretudo, articular com o parque industrial local a demanda de bens e serviços provocada pela transição energética. A coordenação da política energética com a política de conteúdo local é essencial para a retomada do crescimento econômico com substantiva geração de empregos qualificados. O apoio decisivo ao esforço de inovação tecnológica do parque produtivo deve estar no âmago desse processo.

Conclusões: (i) o Brasil encontra-se em posição privilegiada para exercer função proeminente nas negociações globais relativas à transição energética; (ii) o seu suprimento seguro de hidrocarbonetos exercerá papel determinante na sua inserção na economia global e (iii) a articulação da transição energética com o parque produtivo é essencial para o desenvolvimento econômico do país.

 

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