Uma publicação da Editora Brasil Energia

Enfim Engenheiro(a) de Petróleo, e agora?

Graduar-se e encerrar um ciclo de mais de 5 anos estudando deveria ser motivo de felicidade, correto? Pois é, tristemente nota-se que esta não é a realidade vivida por Engenheiros (as) de Petróleo no Brasil

  • Por Natan Battisti com Filipe Duarte, Augusto Klaus e Max Tocantins

Graduar-se e encerrar um ciclo de mais de 5 anos estudando deveria ser motivo de felicidade, correto? Pois é, tristemente nota-se que esta não é a realidade vivida por Engenheiros (as) de Petróleo no Brasil.

A bem da verdade, esse trágico fim de baile não é exclusividade dos estudantes de Engenharia de Petróleo, já que o Brasil rico do futuro parece nunca chegar. Dados do Dieese (1) mostraram que o número de jovens formados desempregados saltou de 8,2% (2014) para 13,8% (2018) e que destes, apenas 35%, em 2018, estavam em postos que exigiam formação superior contra 51% em 2014. Ainda há de se considerar que, possivelmente, boa parcela destes jovens formados e empregados em posições que requerem ensino superior não estão trabalhando em suas áreas de formação. De fato, não é este o Brasil do futuro que nos venderam no início dos anos 2000.

Nosso objetivo não é ser ”Engenheiro de obra pronta”, não obstante, olhando pra trás notamos que a abertura desenfreada de cursos de graduação com o único intuito de ”formar” mais profissionais foi mais que um erro, foi um dolo. Entre 2001 e 2010 (2) a matrícula de estudantes no ensino superior mais que dobrou, multiplicaram-se cursos de graduação [muitas vezes sem contexto regional] e muitos jovens tiveram a chance de serem os primeiros formados nas suas famílias. Tudo pra dar certo desde que a poeira ficasse embaixo do tapete. A realidade veio, os jovens se formaram, o Brasil entrou em crise pós crise e o desemprego e a informalidade explodiram.

Voltando ao O&G, aqui o buraco foi e é mais embaixo. Não bastasse a euforia genérica do ”novo” Brasil do início dos anos 2000, vínhamos de uma abertura (jurídica mas não de fato) bem sucedida do mercado petrolífero em 1997, tínhamos leilões periódicos sob regime pariforme de concessão, as maiores petroleiras estavam no Brasil fazendo investimentos quando então veio a benção – e a desgraça. A descoberta do Pré-Sal, a maior reserva petrolífera dos últimos 20 anos, mostrou ao mundo que aqui tinha muito petróleo.

Não obstante, a falta de senso de urgência lastreava o nosso óleo. Vieram anos de discussões infundadas no Congresso, anos sem leilões em um tempo de petróleo acima dos US$ 100/bbl, o regime de partilha, a operação única da Petrobras, sistema fiscal ainda mais burocrático, leilão de um consórcio só em 2013, falta de cuidado com o onshore e as águas rasas. Até que em 2016 o Brasil acorda, já em meio a preços baixos de petróleo, o desinteresse das petroleiras (muitas que já haviam fechado as portas pra não mais voltar ao Brasil) e com um esforço significativo e louvável dos novos agentes públicos e de boa parte dos privados faz com que tivéssemos a ”volta da fênix” no setor de O&G.

O fim da operação única da Petrobras e os novos leilões a partir de 2017 trouxeram cor, vida e esperança a todos. Todavia, já estávamos iniciando uma transição energética iminente, e outros problemas começaram a se mostrar significativos, como exemplo, a derrocada do onshore, a difícil situação dos produtores independentes, o mercado monopsônico de refino e transporte, os gargalos do gás, a demora nos licenciamentos, os entraves dos não convencionais etc.

Enquanto isto, os cursos de Engenharia de Petróleo se multiplicaram. Em 2005 o Brasil produzia 1,6 milhões de bbl/dia e tinha registrados seis cursos de bacharelado em Engenharia de Petróleo, segundo o MEC, com um total de 535 vagas por ano. Para um país em que a maior empresa petrolífera, que produzia mais de 95% da produção nacional, não fazia processos seletivos específico para Engenheiros de Petróleo e detinha um excelente curso de formação para os Engenheiros iniciantes na Bahia e no Rio de Janeiro, este número de Universidades poderia até aparentar ser insuficiente, mas em realidade quantos mais seriam necessários? E aonde deveriam estar estas escolas?

Cursos abertos de Engenharia de Petróleo em 2005

Como comparação, a Colômbia, nossa vizinha, produzia em 2005 (5) cerca de 526 mil bbl/dia e possuía cinco cursos de graduação. Oito anos depois, em 2013, a Colômbia chegou a produzir mais de 1 milhão de bbl/dia (7) e o número de cursos continuou intacto como estão até hoje, segundo a ACIPET (6).

Já no Brasil, como resultado de políticas populistas e de base arenosa, teve-se a abertura desregulada dos cursos de graduação, chegando aos atuais 101 cursos de bacharelado de Engenharia de Petróleo com possibilidade de até 20.363 vagas semestrais*. Além destes, mais 102 cursos Tecnológicos de Petróleo e Gás com possibilidade para abrigar até 13.896 vagas semestrais, segundo o MEC (10).

À medida que analisamos os dados abaixo, nota-se claramente que a preocupação com o futuro bacharel em Engenharia de Petróleo nunca esteve em discussão na mesa dos entes governamentais, visto que mesmo durante crises, falta de leilões e preços baixos do petróleo os cursos continuaram a se multiplicar. Abaixo pode-se ver o crescimento da produção petrolífera nacional em MMboe/dia versus o número de cursos abertos por ano.

Destes 101 cursos de bacharelado, 10 jamais de fato abriram, 91 chegaram a abrir e ter turmas e 61 ainda estão abertos podendo oferecer até 9.103 vagas semestrais.

Dos 102 cursos tecnológicos, 11 jamais abriram de fato e 36 continuam abertos oferecendo até 5.560 vagas semestrais.

Além de um número elevado, embora a grande maioria das empresas petrolíferas estejam baseadas no Rio de Janeiro, cursos foram abertos em todas as regiões brasileiras mesmo em estados sem produção petrolífera, como pode se ver no gráfico abaixo.

Tudo isso levou a uma safra de Engenheiros e Tecnólogos em Petróleo e Gás fadados a não serem empregados no setor que almejavam. Muitos destes, além de +/- 5 anos de graduação e excelente formação técnica, trazem consigo boletos dos financiamentos estudantis feitos para obter o sonho da formação superior. Para os que conseguiram entrar no setor petrolífero, o caminho certamente não foi fácil.

Dada esta calamitosa situação, criou-se o Até o Último Barril, um grupo de trabalho formado por jovens profissionais do setor energético brasileiro que objetiva pontuar os gargalos do setor sob a perspectiva do jovem, e propor soluções que agilizem a criação de negócios no Brasil visando a diminuição da informalidade e do desemprego e que possam gerar riqueza através dos nossos recursos naturais. Em uma primeira iniciativa, o grupo realizou entre 01/05 e 08/05 uma pesquisa de opinião usando redes sociais em que buscou-se aferir principalmente as seguintes questões:

  1. Situação empregatícia dos jovens do setor petrolífero (não só Engenheiros);
  2. Ambições dos jovens do setor petrolífero;
  3. Maleabilidade para migrar para outras áreas;
  4. Principais palavras que vem a cabeça quando se fala em crise;
  5. Possíveis mudanças na indústria como ela hoje é.

Mesmo não havendo muita divulgação, obtivemos 91 respostas, sendo a maioria estudantes e jovens profissionais. Destes, 63 são estudantes ou Engenheiros de Petróleo, 27 outras Engenharias ligadas à área de petróleo e os demais de outros cursos.

Embora tenhamos atingido várias regiões, a maioria está localizada no sudeste brasileiro.

Quando perguntados se estão empregados ou estagiando, 58,2% não estão. Acreditamos que se a amostra conseguisse ser mais representativa de acordo com a localização dos cursos, o número de desempregados seria ainda maior. Outro fator que colabora para esta conclusão é que esta pesquisa foi compartilhada dentro de redes sociais em que a maioria ainda está ativa no setor, não abrangendo, por óbvio, profissionais que se graduaram e que estão desempregados e/ou migraram para outras áreas após dificuldades no setor de O&G.

Para as pessoas que responderam não estar empregadas ou estagiando, as duas principais dificuldades pontuadas foram:

  • Grande concorrência devido ao grande número de profissionais vs. baixo número de vagas de estágio e trainee.
  • Distância das Universidades do Sul, Norte e Nordeste para o polo petrolífero (RJ), dificultando o acesso às oportunidades que lá estão.

Quando questionados sobre onde estes jovens se veem em um futuro próximo, a grande maioria buscará estar fazendo carreira em companhias privadas, seguida pela tentativa de empreender. Embora pudessem escolher mais de uma opção, carreira acadêmica e carreira em empresas públicas não obtiveram grande apelo, mostrando uma mudança significativa de mindset dos jovens.

No quesito setores em que os jovens se veem trabalhando, uma realidade interessante se mostra nos dados abaixo. Embora a maioria queira trabalhar no setor petrolífero, boa parte se interessa por áreas como a das Energias Renováveis.

Buscando avaliar o sentimento dos jovens, perguntou-se quais as primeiras 3 palavras vêm a cabeça dos mesmos quando citado que adentramos em mais uma crise do setor de petróleo. Em 288 palavras citadas, as 5 que mais constaram são Desemprego e Dificuldades do ponto de vista negativo, mas também palavras como Oportunidade, Resiliência e Inovação que mostram a conotação de esperança da juventude.

Por último, buscamos entender o que os jovens mudariam no setor energético brasileiro e na indústria petrolífera nacional caso tivessem poder para tanto. A grande maioria das proposições se deram nos seguintes temas:

  • Maior conexão Universidade-Indústria;
  • Maior divulgação dos processos seletivos;
  • Estímulo à inovação e ao uso de tecnologias;
  • Desburocratização regional e federal seguida da diminuição da carga tributária, de modo a atrair mais investimentos;
  • Fomento ao empreendedorismo regional, criando ecossistemas de geração e consumo próximos;
  • Aceleração de estímulos às energias renováveis.

Os pontos acima são abrangentes e tangem esforços necessários por parte de governos, indústria e também de nós profissionais. Fica claro que há enormes desafios e necessidade de desentraves no status quo, para que consigamos dar oportunidade aos jovens de forma que possam se preparar durante a graduação.

No cenário atual, entendemos que as empresas têm buscado propor soluções, as quais normalmente esbarram no risco Brasil ou na nossa conhecida burocracia que mata o pequeno, estrangula o médio e afugenta o grande. Dado isso, notamos urgentes a revisão de duas questões por parte dos órgãos governamentais na esfera municipal, estadual e governamental:

  1. Como atrair mais investimentos para o cenário energético brasileiro? E como o fazer de forma distribuída, respeitando as particularidades regionais?
  2. O que fazer com o grande número de cursos de graduação e tecnológicos defasados em relação à demanda de profissionais?

O item 1, apesar de complexo, já possui várias soluções propostas, como o desentrave do REATE, o novo mercado de gás, clareza nos requerimentos e viabilidade dos licenciamentos ambientais, fim do monopólio de fato no refino e distribuição, incentivos a campos maduros, marginais e também as novas fronteiras exploratórias. Todos estes vêm sendo muito bem liderados por instituições como IBP, ABPIP, ABESPETRO e que tem amparo dentro de órgãos como ANP e MME, que vêm fazendo um excelente papel. Certamente poderia haver mais celeridade nas mudanças, mas estamos claramente progredindo.

Quanto ao item 2, não vemos nenhuma discussão. Muitos cursos possivelmente continuarão abertos por algum tempo, captando alunos muitas vezes com propagandas lúdicas de um setor petrolífero pujante, de altos salários e que falta mão de obra, etc. E tudo isso para quê? Na grande maioria dos casos para graduar-se, frustrar-se e ter de escolher outro setor como ganha pão. Não seria a hora de repensá-los e endereçar contextos regionais e de transição energética aos mesmos?

Até quando teremos de conviver com centenas de excelentes jovens profissionais se formando com o retumbante pensamento de ”Enfim Engenheiro(a) de Petróleo, e agora?”

 

*apenas 1 de periodicidade anual, mas extinto – CENTRO UNIVERSITÁRIO GERALDO DI BIASE, RJ

(1) https://agora.folha.uol.com.br/grana/2019/09/mais-jovens-recem-formados-ficam-sem-emprego-no-pais.shtml

(2) https://www.scielo.br/pdf/es/v36n131/1678-4626-es-36-131-00361.pdf

(3) https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-petroleo-depois-da-festa/

(4) http://www.anp.gov.br/noticias/1605-producao-de-petroleo-e-gas-natural-foi-recorde-em-novembro-de-2010

(5) https://www.portafolio.co/economia/finanzas/primera-vez-1999-incremento-produccion-petroleo-colombia-349822

(6) https://acipet.com/

(7) https://www.larepublica.co/economia/en-2018-la-produccion-de-petroleo-seria-de-hasta-870000-barriles-por-dia-2589411

(8) http://www.abenge.org.br/cobenge/arquivos/7/artigos/104386.pdf

(9) https://www.ibp.org.br/observatorio-do-setor/snapshots/evolucao-das-reservas-provadas-e-producao-de-petroleo-e-gas-natural-no-brasil/

(10) http://emec.mec.gov.br/ pesquisa avançada

 

 

Natan Battisti é Engenheiro de Petróleo formado pela Universidade Federal de Pelotas, hoje atua na Premier Oil como Group Development and Operations Technical Engineer onde em 2018 iniciou como estagiário de HSES e Operações. Desde 2013 é membro da SPE, sendo atualmente voluntário da SPE Brazil Section, SPE London Section e membro afiliado da PESGB

 

 

Filipe Duarte é Engenheiro de Petróleo formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), hoje atua como Engenheiro de Pré-comissionamento de Dutos na Halliburton, onde iniciou carreira como estagiário no setor de Pipeline & Process Services. É membro afialiado da Society of Petroleum Engineers (SPE), instituição à qual presta serviços voluntários desde a graduação

 

 

Augusto Klaus é Engenheiro de Petróleo formado pela Universidade Federal de Pelotas, Pós-graduado em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atua como líder dos projetos de gás na Petro+ e consultor em integridade de Poços pela Compliasset e Membro afiliado da SPE

 

 

Max Tocantins é Engenheiro de Petróleo formado pela Universidade Santa Cecília (Santos/SP) desde 2018. Desde 2018 é voluntário Young Professional (YP) na Seção Brasil SPE. Iniciou sua trajetória profissional como estagiário de Drilling Engineering na Schlumberger em 2017. Em 2019, iniciou na Wood como Risers Engineer. Atualmente está trabalhando no setor de Commercial & Business Acquisition na Wood

 

* Os autores reforçam que falam por si e que suas opiniões não representam necessariamente a das empresas nas quais trabalham

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