Impactos Permanentes da Pandemia sobre o Mercado Internacional de Petróleo e Combustíveis

A discussão sobre resiliência de cadeias de produto, sob os aspectos de continuidade de operação, fluxo de informação e sustentabilidade financeira, vem sendo ampliada por parte das empresas e englobará agora o suprimento de energia.

Após cerca de 16 meses desde o início da crise causada pela Pandemia – COVID-19, pode-se descrever com maior clareza as consequências que esta crise deixará de forma permanente no mercado internacional de petróleo, gás, derivados e biocombustíveis. Os efeitos vão desde a eliminação imediata de segmentos do mercado de derivados e redução do consumo de combustíveis, passando pela regionalização da produção/consumo de petróleo e a intensificação do uso de gás natural. A adequada avaliação do impacto e da profundidade destas mudanças nas cadeias de petróleo e combustíveis deverá nortear os estudos e as decisões na elaboração do planejamento estratégico das empresas do setor. Subestimar os efeitos permanentes desta crise poderá significar elevar o risco operacional e perder competitividade no futuro.

Do ponto de vista de garantia do suprimento de energia aos consumidores, as cadeias de petróleo e combustíveis possuem diversas vulnerabilidades. Em um novo mercado de energia, esta será uma variável a ser considerada no planejamento do suprimento pelos clientes e no planejamento da matriz energética dos países. Os frequentes eventos disruptivos (desastres naturais, ataques digitais, conflitos armados, acidentes), adicionados ao longo período da Pandemia, reforçaram a criticidade da continuidade do suprimento de energia nestas situações. A busca por fontes de energia menos vulneráveis será guiada por estratégias de Supply Chain, que há décadas também são utilizadas para outros insumos de produção. A pouca familiaridade desta visão aplicada ao mercado de energia é um dos principais impactos que a Pandemia trará para o setor. Apresentar o grau de resiliência do suprimento de produto, neste caso energia, passará a ser um aspecto fundamental para manutenção dos clientes.

Soluções para limitação dos efeitos causados pela Pandemia estão em implementação, mesmo neste momento onde o mercado internacional ainda se recupera. A discussão sobre resiliência de cadeias de produto, sob os aspectos de continuidade de operação, fluxo de informação e sustentabilidade financeira, vem sendo ampliada por parte das empresas e englobará agora o suprimento de energia.

O Exemplo do Combustível de Aviação

Após a forte queda do consumo no Brasil e no mundo de “Jet Fuel”, em função da redução drástica do fluxo de aeronaves para transporte, tanto de passageiros quanto de cargas, as análises agora se voltam para a possibilidade de retomada do setor aéreo. As melhores estimativas apontam para uma redução de 20% a 25% no consumo de combustível para aviação, representando a perda de uma parcela significativa do mercado. Portanto as projeções consideram um mercado que representa apenas de 75% a 80% do mercado de “Jet Fuel” existente em 2019. Claramente um impacto de natureza permanente causado pela Pandemia no mercado de combustíveis.

 

Figura 1 – Redução no consumo mundial de “Jet Fuel”

 

Nas projeções de mercado, a retomada do fluxo de passageiros para viagens de lazer é esperada com recuperação dos padrões anteriores ao longo do tempo, com estimativas para sua normalização variando de 2023 a 2027. No caso das viagens de negócios, parte delas não mais ocorrerá, representando a parcela eliminada do mercado.

 

Figura 2 – Projeção do consumo Brasil de “Jet Fuel”

 

A causa desta redução advém da mudança tecnológica expressa pelo uso de softwares de videoconferência, amplamente difundidos em função da migração do trabalho para Home Office. Ou seja, a solução encontrada para comunicação impactou direta e fortemente a demanda de “Jet Fuel”. Do ponto de vista dos clientes, manter suas atividades sem depender do uso de transporte aéreo, e neste caso a vulnerabilidade do suprimento de “Jet Fuel” se torna irrelevante, exemplifica de forma extrema como uma visão de garantia da continuidade para o negócio pode impactar de forma inesperada o mercado de combustíveis. O ponto importante para o setor de petróleo e combustíveis é que novas questões e novas soluções, impulsionadas pela crise e difundidas entre empresas, irão se manter e mudar a dinâmica deste mercado. O “Jet Fuel” é um primeiro exemplo, quase simbólico, no entanto existem outras transformações ainda em andamento.

Um Novo Ponto de Vista sobre as Cadeias de Petróleo e Combustíveis

Os dados de demanda de combustíveis no Brasil demonstraram uma redução no consumo de gasolina e etanol no ano de 2020. Os valores para gasolina e etanol eram esperados em função da diminuição da mobilidade das pessoas no país. Diferentemente da relativa estabilidade no consumo de diesel, resultado da manutenção do transporte de produtos para consumo. Um efeito semelhante foi observado em diferentes países do mundo.

 

Figura 3 – Consumo mensal de gasolina, etanol e diesel no Brasil em 2019 e 2020

Figura 4 – Consumo mensal de gasolina e diesel nos EUA em 2019 e 2020

 

Figura 5 – Utilização de capacidade média das refinarias no Brasil em 2020

 

Ao longo de 2020 houve redução no volume consumido dos produtos. No mês de abril a queda no consumo foi de 14% para diesel e 28% para gasolina, com valores inferiores ao consumo de 2019 perdurando até setembro de 2020, quando os volumes retornaram a patamares usuais no mercado. Esta variação no consumo no início da Pandemia gerou aumento dos estoques na cadeia de combustíveis e redução da produção nas refinarias. Estas medidas elevaram os estoques de petróleo tanto em terminais como nas próprias unidades de produção offshore. Nesta crise, por ter uma operação bastante verticalizada na produção de petróleo e refino através da Petrobras, o Brasil pode coordenar estas operações de maneira a impedir que houvesse uma ruptura na cadeia. O mesmo não ocorreu em outros países do mundo. Por exemplo, a emblemática venda de petróleo cotado a preços negativos nos EUA foi causada exatamente pela necessidade de escoamento de produto.

Frente às limitações e riscos nas cadeias de petróleo e combustíveis, as discussões sobre o uso de estratégias para aumentar a resiliência do suprimento de energia para empresas e consumidores foram reforçadas. Por exemplo, ampliou-se o interesse por veículos que usem fontes de energia com menor risco de ruptura, representadas por cadeias de suprimento regionais ou alternativas. Veículos elétricos, que podem ser abastecidos por rede ou de forma autônoma foram impulsionados, mesmo já tendo seu posicionamento favorecido pelas montadoras de veículos no mercado. As tecnologias como hidrogênio, mesmo que eliminando a emissão de carbono, mas com cadeias de suprimento complexas, naturalmente estarão em desvantagem neste novo cenário para o mercado de energia.

 

Figura 6 – Datas previstas para término da produção de veículos movidos a combustão interna na Europa.

 

O Brasil tem uma cadeia de produção naturalmente regionalizada por ser produtor de petróleo, possuir ampla capacidade de refino e ter desenvolvido o uso de biocombustíveis. Este tipo de cadeia possui uma resiliência maior a riscos de ruptura, o que cria uma vantagem em relação a países que não são autossuficientes na produção de seus combustíveis. Uma discussão a ser feita no âmbito do CNPE é de ações que devem ser tomadas para aumentar a resiliência nas cadeias de petróleo e combustíveis nacionais. Atualmente a única discussão realizada sobre o tema apontou para o uso de estoques de derivados. No entanto, outras estratégias de Supply Chain, consideravelmente mais eficientes, estão disponíveis para que as empresas do setor atuem sobre os riscos identificados: reavaliação de capacidade de seus ativos, flexibilidade para fluxos alternativos de suprimento, aumento da velocidade e qualidade do fluxo de interno de informação, priorizar o suprimento através de origens de menor risco, aumentar a capacidade financeira para suportar risco sobre recebíveis.

O uso do etanol é uma solução bastante favorável em termos de resiliência de suprimento por ser produzido através de uma cadeia de suprimento curta e regional. A possibilidade de reduzir a dependência de outros derivados fósseis nesta cadeia, ou seja, na produção e distribuição do etanol, é uma questão a ser avaliada e incorporada dentro de uma estratégia para oferecer aos consumidores maior segurança no suprimento, do ponto de vista de matriz energética nacional.

A cadeia do biodiesel atualmente tem uma complexidade maior em função de sua dependência da importação de metanol em seu processo de produção. A reavaliação da utilização deste insumo, ou a possibilidade de regionalização da produção poderiam alavancar seu uso, do ponto de vista de resiliência no suprimento do produto.

Estas discussões representam o tipo de mudanças no cenário Pós-Pandemia que irão aprofundar e dar velocidade ao processo de avaliação do suprimento de energia em andamento no mundo, trazendo consequências diretas para o consumo de combustíveis e para a produção no setor.

A Regionalização da Consumo de Petróleo e Gás Natural

O ponto principal na questão da resiliência na cadeia de petróleo é localização das reservas. Diferente de outros insumos de produção, as reservas de petróleo têm uma localização definida pela geologia e não podem ser readequadas na cadeia de suprimento. Este fato cria uma limitação forte para países cujo fornecimento de petróleo exige o transporte em longas distâncias, aumentando a complexidade de suas cadeias. Na situação atual, a importação de petróleo é pouco questionada nos países, no entanto a visão neste novo mercado de energia vai além de todos os aspectos ambientais envolvidos na discussão. O uso de fontes de energia regionais, com cadeias curtas, será preferido. Espera-se que países com interesse em um suprimento de energia de menor risco reduzam a importação de petróleo e ampliem a diversificação de fontes de energia, em linha com estratégias de Supply Chain que priorizam cadeias de menor risco e buscam diversas alternativas de suprimento. Esta é uma questão que o setor de petróleo deverá endereçar, e neste caso o investimento de companhias de petróleo em outros tipos de energia será reforçado. A mudança gerada pelo contexto da Pandemia está no foco em buscar entre as alternativas de fontes de energia aquelas que privilegiem a resiliência em seu suprimento, o que potencialmente será um diferencial competitivo.

 

Figura 7 – Mapa com os principais exportadores de petróleo e principais importadores.

 

Por outro lado, países que possuem reservas de petróleo e capacidade de refino poderão manter seu planejamento de transição energética. A reflexão a ser feita será sobre ações que possam ser implementadas em suas cadeias de suprimento de petróleo que minimizem os riscos de ruptura, utilizando estratégias de Supply Chain adequadas à particularidade de cada situação. Portanto, mesmo países produtores de petróleo deverão considerar o aspecto de resiliência em seu planejamento.

Importante ressaltar a posição do Gás Natural como combustível alternativo, tendo em vista o objetivo de garantir a continuidade do suprimento de energia. A própria natureza de seu modal de transporte, em dutos, tanto para transporte como para distribuição, reduz riscos de ruptura. Na medida que a origem do Gás Natural seja regional, esta é uma fonte de energia que pode ser utilizada dentro de uma estratégia de diversificação do suprimento de combustível. A intensificação de seu uso poderá ser uma das consequências da Pandemia sobre o mercado de energia.

No caso do Brasil, um dos pontos a ser avaliado é dificuldade no crescimento da oferta regional de gás natural. Os investimentos em dutos para transporte do gás offshore tem sido limitados, por outro lado a importação de GNL através de terminais marítimos tem sido crescente, parte em função da variação na demanda pelo produto em usinas térmicas. No entanto, o gás natural pode ter amplo uso industrial e veicular, o que poderia ao longo do tempo permitir a viabilização de novos investimentos para o uso de fontes regionais, também associadas à produção de energia, já considerando as questões de resiliência no suprimento do produto.

Resiliência

A Pandemia foi o exemplo de maior impacto até o momento em relação a eventos que podem provocar rupturas em cadeias de produto, no entanto não é único, eventos de natureza climática, conflitos armados, crises financeiras, podem afetar a continuidade de negócios. Posicionar o suprimento de energia dentro de uma visão de Supply Chain permite que se façam reflexões sobre como melhorar a resiliência da cadeia de produto, seja petróleo, gás ou combustíveis. Esse será um aspecto valorizado pelas empresas, tanto fornecedoras como clientes, e potencialmente será a principal mudança gerada pela Pandemia no setor de petróleo e combustíveis.

 

 

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