Uma publicação da Editora Brasil Energia

Novos Aspectos no Cenário de Competição no Mercado de Refino

No cenário de competição no setor de refino brasileiro, haverá dois aspectos de interesse que estarão influindo na dinâmica deste mercado: a oferta futura de produtos dos novos refinadores e a implementação do programa RenovaBio

  • Por Marcus D’Elia

No cenário de competição no setor de refino brasileiro, haverá dois aspectos de interesse que estarão influindo na dinâmica deste mercado: a oferta futura de produtos dos novos refinadores e a implementação do programa RenovaBio.

A nova oferta de produtos nas refinarias vendidas pela Petrobras irá impactar não só o volume produzido, mas também o mix local de produtos, uma vez que irá refletir o interesse em refinar produtos visando maior margem, ampliação de mercado no país ou, em casos específicos, a exportação de produtos. Por outro lado, a implementação do RenovaBio pretende ampliar a oferta de etanol, representando a intensificação da competição no mercado de Ciclo Otto (motores a gasolina e etanol), no entanto em uma abordagem mais aprofundada verifica-se que o programa não irá deslocar a produção de gasolina A no país, não afetando o processo atual de investimentos em refino.

A Questão da Oferta das Novas Refinarias

A questão da oferta das refinarias pode ser dividida em duas partes: volume esperado comparado com a produção recente das unidades ainda na gestão da Petrobras e os limites para adequação do mix em cada uma das refinarias de acordo com critérios que viabilizam o investimento realizado pelos novos refinadores.

Os dados históricos de refino no país mostram uma redução da oferta pelo conjunto nacional de refinarias, mostrando uma queda expressiva a partir do ano de 2014, em função do período de recessão, que gerou uma estabilização da demanda, e a entrada de produtos importados, a partir da adoção de uma política de preços com referência na paridade internacional. Considerando os valores apresentados atualmente, a média de refino estaria cerca de 15 pontos percentuais abaixo do esperado em um mercado de demanda regular e crescente.

Gráfico 1 – Utilização Média Anual das Refinarias Petrobras

Se observarmos o comportamento por refinaria, existem situações bastante distintas, o que pode nos levar a uma compreensão melhor do volume de produtos refinados no futuro próximo. Observando a tabela com a utilização média anual das principais refinarias que estão no processo de desinvestimento, verificamos dois grupos:

  1. Alta utilização da capacidade: REGAP (Mina Gerais) / REPAR (Paraná)
  2. Baixa utilização da capacidade: RLAM (Bahia) / REFAP (Rio Grande do Sul) / RNEST (Pernambuco)

Por outro lado, na tabela verifica-se que as refinarias remanescentes da Petrobras se posicionam num grupo intermediário de utilização da capacidade de refino autorizada pela ANP.

Tabela 1- Utilização Média Anual por Refinaria

Com esta visão, espera-se o crescimento da oferta a partir do aumento da utilização do parque de refino, conforme gráfico comparativo por refinaria. As refinarias: REFAP, RLAM E RNEST têm a possibilidade de ampliar a utilização em cerca de 20 pontos percentuais. Já as unidades remanescentes Petrobras poderiam ajustar sua utilização entre 5 e 15%, dependendo do interesse em competir no mercado.

Gráfico 2 – Comparativo Ampliação da Utilização das Refinarias

Aplicando as taxas previstas de utilização da capacidade de refino, como estimativa passaríamos a produção nacional de gasolina A de 25 MM m³ por ano para 29,4 MM m³, um aumento em volume de 17%. Considerando que a ampliação esperada na demanda para motores Ciclo Otto até 2030 é de cerca de 37%, neste cenário sem alterações de mix de produto nas refinarias, o volume produzido de gasolina A irá competir com o etanol hidratado no país, havendo ainda espaço para importação de ambos os produtos, mesmo com a influência do RenovaBio.

No caso do diesel A, a produção nacional seria ampliada de 38 MM m³ para potenciais 45,4 MM m³, representando um crescimento de 19,4% na oferta do produto. Comparando-se com cenário de demanda de diesel A para 2030 atingindo 56,8 MM m³, com a premissa de manutenção de mix e sem a inclusão de novas refinarias (p. ex. 2ª Trem RNEST), haveria ainda espaço para importação do produto no período.

Gráfico 3 –  Valores de Crescimento de Oferta e Demanda Ciclo Otto – Volume em Gasolina Equiv.

Gráfico 4 –  Valores de Crescimento de Oferta e Demanda diesel A.

 

Neste cenário de volumes, gerado a partir da premissa de maior utilização das refinarias, é possível entender o balanço nacional para diesel e gasolina no horizonte de 2030, mostrando que o país se manterá deficitário em derivados no balanço nacional nos próximos 10 anos. Cabe informar que em um mercado em competição, espera-se o aumento do fluxo de importação e exportação de derivados devido ao aumento do número de players, representando apenas a intensificação das relações comerciais no mercado.

O balanço nacional de oferta e demanda sempre foi a referência para tomada de decisão da Petrobras durante o período em que foi responsável, na prática, pelo abastecimento nacional. No entanto, na nova configuração de mercado com a participação de novos refinadores, a lógica para tomada de decisão sobre mix de produtos será determinada por outros aspectos. Os aspectos relevantes serão:

  • Balanço entre a demanda e oferta na área de influência do refinador, representando a capacidade de sustentar a precificação de seus produtos no mercado local.
  • Custo de refino dos produtos em relação às outras refinarias competidoras, representando a capacidade de ampliação de mercado sobre a área de influência de outras refinarias.
  • Capacidade da infraestrutura logística de competição na área de influência da refinaria, representando o volume que poderá estar sob risco pela competição por outros refinadores e importadores.
  • Mercado potencial no exterior para derivados, representando a facilidade de exportação de produtos em operações comerciais com o objetivo de eliminar o excedente de produção.
  • CAPEX necessário para adequação de mix, representando o custo adicionado ao preço do produto para remuneração do investimento em adequação da refinaria.

Tomando estes cinco aspectos, a decisão de mix para os novos refinadores dependerá de condições particulares para cada refinaria, no entanto, dentro de um range definido de critérios. Em uma avaliação preliminar, segundo estes critérios, pode-se esperar uma variação reduzida no mix de produção das refinarias REPAR e REGAP. Estas refinarias operam em mercados com demanda superior à sua capacidade de produção de diesel e gasolina, possuem competidores que podem atuar em sua área de influência, receberam investimento em melhorias de eficiência na produção de derivados e existe infraestrutura logística para fácil internalização de produtos. Ou seja, a ampliação de oferta deverá afetar pouco o mix de refino.

Também de forma preliminar, as refinarias RNEST e RLAM tendem a modificar seu mix. A utilização em padrões mais baixos reflete a natureza superavitária destas refinarias em relação ao seu mercado de diesel. Existe especificamente a possibilidade de ampliação da produção de óleo combustível, sem investimento significativo, que poderá atender às especificações da IMO 2020, o que deve impulsionar esta adequação. No caso da RNEST existe a questão da produção de nafta em detrimento da gasolina, que possivelmente será reavaliada pelo futuro comprador, considerando o mercado em sua área de influência. Além disso, ambas as refinarias possuem infraestrutura logística que permitirá a cabotagem de produtos, com a possibilidade de competição nos mercados do Maranhão e Arco Norte, e alternativamente exportação.

Finalmente, a REFAP também possui capacidade excedente em relação ao mercado natural da refinaria para diesel e gasolina. Tem como possibilidade o atendimento do volume adicional de nafta para o polo petroquímico de Triunfo, no entanto, ampliando seu excedente de diesel e outros derivados. A infraestrutura limitada no Terminal de Osório para expedição de produtos pode dificultar a competição no Paraná e em São Paulo ou a exportação. Neste caso, a decisão de mix para a refinaria deverá estar fortemente atrelada ao custo de refino de seus produtos.

Cabe ressaltar que, no volume de oferta nacional, será adicionada a importação de derivados, regularmente realizada atualmente, e que será um competidor posicionado nos portos, influenciando o balanço entre demanda e oferta regional. Desta forma, a exportação de produtos por um determinado refinador estará lastreada pelo aumento de oferta local, seja por cabotagem ou importação, dada a natureza deficitária do balanço nacional para diesel e gasolina nos próximos dez anos em um cenário sem novas refinarias.

Portanto, a presença de novos refinadores deverá alterar a oferta nacional de produtos ampliando a produção e modificando o mix de refino em algumas refinarias, em função dos números crescentes esperados de demanda, mesmo considerando a atenuação gerada pela substituição de matriz energética nos próximos 10 anos.

A influência do programa RenovaBio

O programa RenovaBio tem por objetivo a expansão do uso de biocombustíveis e a redução das emissões de carbono no Brasil. O programa prevê a compensação da venda de combustíveis fósseis através da compra de créditos de descarbonização (CBIO), originários das usinas de produção de biocombustíveis certificadas no programa.

Espera-se que o maior impacto do programa seja no consumo de etanol hidratado e as projeções, tanto oficiais como de mercado, apontam para crescimento da demanda e consequentemente da produção deste combustível nos próximos dez anos. Dependendo da projeção, o volume atual de produção de etanol em torno de 29 MM m³ por ano poderia, em 2030, atingir de 40 MM m³ a 48,5 MM m³. Esta oferta considera as usinas de etanol de cana e milho.

Gráfico 5 – Cenários de Produção de Etanol

Um ponto importante na questão do aumento da participação do etanol de cana no suprimento de combustível para ciclo Otto é a influência do mercado de açúcar sobre a disponibilidade do produto no país. Um bom indicador para avaliar a variação que existe na produção é a relação entre etanol e açúcar produzidos em cada safra. O gráfico abaixo mostra a variação histórica desta relação entre 49% e 65%. Como exemplo, a relação de 65% significa que 65% da produção de cana de açúcar, em toneladas, foi destinada ao etanol.

Gráfico 6 – Histórico do Mix Etanol/Açúcar

Na produção do etanol de cana, outras variáveis podem influenciar o volume final da produção de etanol, como: total de área colhida de cana de açúcar, a produtividade agrícola, produtividade industrial, entre outros fatores. Desta forma existirá um valor provável de produção de etanol por ano, mas não significando que esta produção será previsível e crescente ao longo do tempo, ao contrário da produção relativamente constante e bem definida de derivados.

Gráfico 7 – Produção Histórica Anual de Etanol.

Considerando os dois aspectos: o incentivo à ampliação do etanol na matriz energética e a variação natural da produção deste biocombustível, qual seria o impacto esperado para os novos refinadores no país?

Em estudo realizado pela Leggio sobre cenários potenciais para produção de etanol até 2030, verifica-se que para influenciar a produção de gasolina A no país, a produção de etanol deveria se estabilizar em volumes superiores a 50 MM m³ por ano, ou seja, a produção nacional de gasolina A seria totalmente consumida e o remanescente da demanda de motores ciclo Otto atendida pela produção de etanol. O gráfico a seguir reflete este cenário limite.

Gráfico 8 – Atendimento da demanda Nacional ciclo Otto.

O mesmo estudo aponta para a probabilidade de ocorrência de cada volume de produção em 2030. Como pode-se observar a maior probabilidade se concentra no valor de 40 MM m3 de etanol de cana. Adicionando a expectativa de produção de etanol de milho, espera-se um volume total de 43,5 MM m³. No mesmo estudo, identificou-se que a probabilidade da obtenção de volumes superiores a 50 MM m³ em 2030 corresponde a apenas 4%.

Gráfico 9 – Probabilidade de Ocorrência da Produção de Etanol de Cana em 2030

 

Portanto, o programa RenovaBio, nos próximos 10 anos, terá um papel complementar na matriz energética fomentando a produção de etanol, mas não se espera que seja fator motivador para redução do volume de produção de gasolina A no país. Desta forma, os aspectos já levantados para definição do volume de produção e do mix de produtos nas refinarias em processo de desinvestimento serão preponderantes em relação aos efeitos do programa RenovaBio.

Finalmente, na análise dos dois aspectos propostos no contexto de mercado, pode-se concluir que haverá modificações na oferta total de derivados, assim como potencial adequação no mix de produtos das refinarias nacionais nos próximos dois anos, como efeito da presença de novos refinadores no país. Por outro lado, a implementação do RenovaBio, com ampliação da produção de etanol, não deverá ser fator determinante no horizonte de 10 anos para deslocamento da gasolina A no mercado brasileiro.

 

 

Marcus D’Elia é Sócio Diretor na Leggio Consultoria, responsável pelo segmento de Petróleo&Gás, com extensa experiência em projetos envolvendo logística offshore, escoamento de petróleo e distribuição de combustíveis. Engenheiro Mecânico com especialização em Engenharia de Produção formado na PUC/RJ, possui Mestrado em Engenharia Mecânica na Escola Politécnica da USP e especialização em Supply Chain Strategy pela Stanford School of Business. Possui dez anos de experiência em consultoria no setor de Petróleo&Gás, tendo realizado projetos em supply chain para as grandes empresas e associações do setor no Brasil. Atuou como executivo durante dez anos na indústria automobilística com passagens pela Volkswagen Veículos Comerciais e Volkswagen México. Sua atuação se estendeu ainda ao segmento de Operação Portuária voltada para granéis sólidos. Possui experiência em estruturação e implantação de cadeias logísticas internacionais baseadas no Brasil, México e África do Sul. Foi responsável pelo merge de operações logísticas internacionais, atuando entre Brasil e Alemanha.

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